O tema não foi definido por mim. Foi sugerido pelo Alceste, professor de Reportagem Especial, diante de minhas fracas opções (Charanga Rubro-Negra e prostituição na Atlântica, a saber). “Por que você não faz uma matéria sobre a feira de Acari?”
Clima informal, sem a necessidade de agendamento prévio. Sim, por que não? Perderia um domingo, mas seria algo simples de se fazer.
Passei à pesquisa já no dia seguinte. Ao buscar por notícias relacionadas, vi que a Secretaria de Ordem Pública realizou uma blitz – o famoso Choque de Ordem – havia poucas semanas na feira, também conhecida como Robauto. Era preciso averiguar se a perspectiva de novas blitze impediria o funcionamento normal nos finais de semana seguintes, o que seria possível somente in loco.
Em uma tentativa de evitar o deslocamento para Acari à toa, entrei em contato com alguns conhecidos que talvez pudessem dar algumas indicações sobre o lugar. Sugeriram-me outras feiras, igualmente conhecidas como Robauto, uma em Campo Grande, outra na Vila do João. Todos foram unânimes em afirmar que a feira de Acari não existia mais. “Mas, como, se dia desses fizeram uma operação lá?”
Não sabiam. Mas foram unânimes também em afirmar que, caso a feira ainda existisse, dariam uma passada por lá em busca de peças para seus respectivos veículos. Compunham, pois, o perfil dos freqüentadores do local – o que se comprova a partir de uma descrição de seus respectivos veículos.
Eduardo tem um Palio 2002, de uma cor que se situa entre o verde e o azul. Após tantas pinturas nem o próprio dono sabe afirmar com certeza. Se bem que o carro está registrado em nome de uma financeira, e após o atraso deliberado no pagamento das últimas 24 prestações consta uma solicitação de busca e apreensão do veículo nos arquivos da polícia. Então, tecnicamente, Eduardo não é o dono do Palio. Fiquemos com o verde, para todos os efeitos.
O Palio verde, com Eduardo ao volante, já derrubou dois postes, que custaram R$ 300 cada um, pagos à Light. No último acidente – se é que se pode chamar de acidente quaisquer colisões provocadas por um motorista clinicamente diagnosticado como portador de epilepsia que costumeiramente ingere incontáveis doses de álcool –carimbou a traseira de um ônibus, em uma batida que acabou com a dianteira do carro, sobretudo o lado direito. No lado esquerdo, o do motorista, o estrago foi relativamente menor: o pára-choque do ônibus ficou a dois palmos do rosto de Eduardo.
O ocorrido se deu em 2010, e só agora ele conseguiu concluir o conserto do veículo. Após o embate com dois postes e um ônibus, e mesmo com os reparos subseqüentes, o Palio circula torto feito um Jipe veterano de guerra. Um dos jipes bombardeados. E na Segunda Guerra, frise-se.
Dizem que o carro reflete o dono que tem. Coincidência ou não, há poucos meses Eduardo passou por uma cirurgia para corrigir uma hérnia de disco. Resta saber se o desvio não foi causado pelo banco desnivelado, ou o volante em forma de elipse, ou a direção desalinhada…
Eduardo não poderia me acompanhar até Acari. Ele mora em Campo Grande, e ainda faz fisioterapia. Prontificou-se a me acompanhar à Robauto de seu bairro, caso não lograsse êxito, e não deixou de me pedir para procurar uma borracha para a vedação do porta-malas. “Procure o Milton, ele pode te ajudar.”
Milton tem um Fusca 78. Sempre quis ter um porque julga o modelo da Volkswagen como um carro “confiável”, opinião compartilhada por muitos que entendem do assunto. O Fusca em questão parece ser a exceção que confirma a regra, pois é habitué de oficinas das mais variadas especialidades. No último conserto (sic) foi usado um arame de sustentação de guarda-chuva como bico injetor de combustível. Quando dá carona a alguém, Milton invariavelmente sai-se com a piada “É bom porque assim tem alguém para empurrar o carro enquanto eu dou o tranco”. Quem ouve a piada raramente acha graça.
Milton, assim como Eduardo, não me acompanharia até a feira. Mas me convidou para um jogo de futebol em Vilar dos Teles, no domingo de manhã. “Vilar dos Teles fica perto de Acari. Nós vamos, jogamos, depois você parte para Acari e faz sua matéria. Aproveita e procura um bico injetor pro Fuscão”.
Claro que não fomos no Fusca. O jogo estava marcado para as nove da manhã e precisávamos chegar. Veja bem, eu disse chegar, o que já seria uma façanha. Pontualidade estava fora de cogitação no caso em tela.
Não sabíamos se estávamos no caminho correto até pararmos em um posto e o frentista confirmar: “Siga na Avenida Automóvel Clube, quando passar das três pontes vire na primeira à direita.” “Três Pontes?” “É só contar, uma, duas, três pontes.”
Motorista perdido faz cada pergunta, quem trabalha em posto deve ficar de saco cheio. Taxistas também, mas eles merecem ser azucrinados em retribuição às bandalheiras que usualmente cometem no trânsito.
Finda a pelada, mesmo caminho na volta. Milton voltou no carro de outro camarada, igualmente derrotado na peleja, por 3 a 2. Automóvel Clube, Rodovia Presidente Dutra. Os carros seguiram por trajetos distintos quando deixei a Dutra e peguei a Avenida Brasil. Rumei no sentido norte até a passarela 28, onde se via a placa “Acari – Fazenda Botafogo” e a seta a indicar a saída à direita. Peguei a rua Pedro Jório e contornei um conjunto habitacional que se estendia por uns cinco quarteirões. Os prédios pintados de verde, talvez em uma tentativa de compensar a falta de árvores na região, ou como recurso de cromoterapia. Verde é esperança, dizem. Mesmo que no subúrbio, de frente para a barulhenta e nada cromoterápica Avenida Brasil, com todos seus caminhões e carretas e charretes.
Virei à direita novamente na rua Victor Frond, rumo ao leste. Mais tarde pesquisei sobre o nome e descobri que Frond foi um fotógrafo francês que no século 19 se dispôs a registrar as terras tupiniquins até sua mais longínqua província, em seu livro Brésil Pittoresque. Tudo a ver. Sem saber, naquele instante seguia eu imbuído do mais genuíno espírito frondiano, desbravador de feiras nunca dantes documentadas.
Acho que fui pela contramão, mas não me preocupei, bandeirante que era. Ademais, o previsto clima de informalidade (deixemos nestes termos) da feira para a qual eu seguia não estimulava a observância de regras de trânsito. E a rua estava deserta.
Foi então que eu reparei. Não havia uma única pessoa nas ruas. Parei na esquina da Frond com a Ribeyrolles – Charles Ribeyrolles, autor dos textos no livro Pittoresque – mirei um lado e outro, e nada. O dia estava quente, e Acari fica longe do mar. “Todos devem estar em suas casas”, pensei, “no conforto das salas equipadas com ventiladores e aparelhos de ar-condicionado comprados em prestações a perder de vista”. O carro em que estava não tinha ar-condicionado operante. Minha lista crescia. Borracha para porta-malas, bico injetor, compressor de ar-condicionado…
Ao olhar trezentos metros adiante, porém, notei que a rua transversal estava movimentada. Só podia ser a feira. Era. Não havia onde estacionar. Entrei na Fruhbeck, com nome de maestro, também pela contramão. Larguei o carro sobre a calçada, com o único cuidado de não obstruir a garagem de ninguém. Lembrei o nome da feira, Robauto. Disparei o alarme. Considerei a possibilidade do alarme não adiantar de nada em uma eventual tentativa de roubo. O carro tem seguro. Dei de ombros.
A feira fica ao lado da estação do metrô de Acari / Fazenda Botafogo, e ocupa toda a extensão da calçada diante do muro que a cerca, algo próximo a um quilômetro, um quilômetro e meio, na Avenida Automóvel Clube (ou Pastor Martin Luther King Jr., segundo o Google Maps. A via parece ser a extensão daquela de Vilar dos Teles, a das três pontes. Alguns passantes me garantiram o mesmo, então fiquei com a verdade dos nativos. Afinal, o que o Google entende de Acari?) desde a Avenida Prefeito Sá Lessa até o vão do viaduto por onde passa a Avenida Brasil. O muro é ornado com ladrilhos coloridos que, na forma como foram dispostos, criam uma paisagem contígua e repetitiva de árvores e campos verdejantes, fundeados por um céu azul e nuvens brancas. Ou seja, tudo o que não há em Acari. Pittoresque.
O relógio marcava 35 graus. A sensação térmica era bem superior a isso. Cravava também o meio-dia e estampava a foto de Leandro Hassum, comediante do programa Zorra Total, em anúncio para os Supermercados Guanabara. “Um milhão de reais em prêmios e um carro zero quilômetro toda semana”. Ao fundo, um Fiat Uno modelo novo, geladeira, fogão, ventilador, máquina de lavar, tudo muito branquinho, novinho, com desconto no IPI para os não-sorteados.
Desci o olhar e estava tudo ali, em continuidade ao anúncio: geladeira, fogão, ventilador, máquina de lavar… até o Uno, provavelmente. Mas tudo estava desconstruído, em partes e peças avulsas, expostas aos transeuntes sobre lonas azuis, amarelas, lençóis estampados e carcomidos, pedaços de papelão, direto no chão. O branquinho passava longe. Impostos, idem. Mas são encontrados toda semana, também. A menos que o Choque de Ordem se abata sobre a zorra.
Bicicletas, bolachões de vinil, gaiolas vazias, gaiolas com passarinhos, passarinhos sem gaiola, vasos sanitários – novos ou usados? – e bidês, os onipresentes jogos para Playstation, DVD’s com filmes nacionais – lembro da carteira funcional da Ancine em meu bolso, mas logo esqueço – e estrangeiros, brinquedos made in China, com ou sem o selo da Abrinq, sapatos, muitos sapatos, reluzentes, à meia-sola, gastos, furados, parafusos, figurinhas de Copas e Brasileirões imemoráveis, Dodôs e Bobôs, Ademires, Preud’hommes, Bebetos e Lechtkovs, porcas, arruelas, uma porca de verdade, leitoa amarrada a um poste, lingerie para todos os gostos e até para quem não gosta, corpetes, espartilhos, cintas-liga, meias três-quartos e sete-oitavos, calcinhas bélicas e de vovó, baby-dolls com um suspeito Je t’aime na altura da bunda – ulalá, monsieur Frond – e de oncinha, um casal de papagaios, um casal de maritacas, um casal se beijando com a boca suja de carne moída, copos de guaraná natural em equilíbrio, barracas de tapioca, milho cozido, pamonha, cuscuz, cocada preta, cocada branca, cocada boa…
Super Nintendo e Mega Drive, Neo Geo e Master System, Ataris e otários, discos rígidos e moles, cd’s em bom estado, arranhados e com mais de um furo, microfones, microsystems, mini-saias, microscópicas, espelhinhos e falsa prata – pra cima de mim, não, cara pálida – ouro de tolo, Ouro Branco, Sonho de Valsa, Serenata de Amor, Waldick Soriano, Jerry Adriani, Sidney Magal em cassete.
Tudo isso só na metade do trajeto, da rampa de acesso à estação até a Prefeito Sá Lessa. Teria de voltar por todo o caminho percorrido para conhecer a outra metade, que se estendia até embaixo da Avenida Brasil a partir da rampa.
Sentia-me cansado. Acordara cedo para jogar bola em Vilar dos Teles – e perdera o jogo, o que derrubou ainda mais a moral da tropa de um só – sem comer nada de café da manhã. Os quitutes da feira estavam definitivamente fora de cogitação. Já devia ser uma da tarde, o sol era inclemente e o suor escorria pelo meu rosto.
Pensei: “Uma cerveja cairia bem”.
Um bar, um bar, um bar… ei-lo, protegido por dois flamboyants de flores vermelhas e copas não tão frondosas como a proximidade com a rua Frond poderia sugerir. Bar do Kubanacan era seu nome. Andando em sua direção pensei que a junção da preposição com o artigo definido denota que este deve ser o nome do dono do bar, e não do bar em si. Como seria um sujeito com um apelido assim? E o que ele teria feito para merecer tal alcunha?
“Isso é segredo de estado”, afirmou Kubanacan com voz rouca de quem lida com bebuns e pinguços diuturnamente. Disse isso e me encarou, em escrutínio. Antes da Ancine que da Anvisa, pensei.
Ao reparar que os clientes do bar se esparramavam pela calçada defronte o bar em mesas e cadeiras de plástico, no bom proveito da sombra proporcionada pelos flamboyants e da cerveja aparentemente gelada – só podia estar gelada, todos compartilhavam de uma expressão de satisfação que só uma cerveja gelada em um domingo de sol na feira de Acari poderia proporcionar, presumi eu – acondicionada em garrafas de vidro de 600 mililitros, tasquei a pergunta: “Tem cerveja em lata aí?”
Só tinha Bohemia. Destoaria das marcas que se distribuíam entre as mesas, mas a portabilidade da lata (a segunda, haja vista que a primeira seria apreciada sob um flamboyant) seria fundamental para a incursão rumo à outra ponta da feira.
Sentei-me em um banco de granito, de onde podia ver uma partida de tranca disputada por senhores com idades que beiravam os setenta. Todos eles tinham cabelos brancos como os eletrodomésticos de Hassum, um ar tranqüilo e a pele enrugada pelas intempéries da vida. Rodeavam os quatro lados da mesa amarela – se fosse coerente com o slogan publicitário, seria redonda – e se revezavam no jogo. Um comprava uma carta, descartava outra. Outro. E outro. Certa vez arriavam algumas cartas na mesa, mas sem descartar. E o tempo passava. Convidaram-me para uma partida, mas fui obrigado a negar, embora seja um apreciador do jogo. Cada partida de tranca pode durar horas, e não pretendia ficar ali até muito mais tarde.
Contentei-me em assistir um pouco mais. Puxei conversa com Agenor – ou ele puxou conversa comigo, a reclamar da sorte – sobre o jogo, a feira, o calor cruel, o flamboyant e o Kubanacan – talvez o codinome do dono do bar tenha sido uma simples rima com o nome da árvore.
Agenor freqüenta o local há quinze anos, desde que se aposentou após três décadas de estrada na boléia de um caminhão. Fazia todo tipo de frete, para todo lugar. Perdeu as contas de quantas mulheres teve e quantas brigas arrumou. Por conta do jogo, não das mulheres. Hoje é casado com Dona Sátira, que apesar do nome é caseira e arredia a folguedos que não os de origem religiosa. Os olhos cinzazulados adquirem um tom nostálgico quando ele diz que foram casados quando novos, se separaram e voltaram a se aninhar após a aposentadoria de Agenor. “Ela vivia reclamando, não aceitava ser mulher de caminhoneiro. Queria que eu trabalhasse em escritório, camisa passada, mas nunca fui disso, não”.
Camisa atravessada sobre um ombro – “mesmo no inverno”, garante, e eu duvido – ri de uma jogada mal-sucedida do amigo. “Moramos aqui em cima”, dedo a indicar o prédio de três andares que se estende, além do Kubanacan, sobre um açougue e uma lanchonete. Com a visão privilegiada para a feira – “Que privilegiada o quê, rapaz… vista privilegiada tem quem mora à beira-mar. Aqui nós temos a vista prejudicada” – já testemunhou assaltos, duras da polícia, feirante correndo, cachorro latindo. “Podem inventar choque de ordem, choque elétrico, o que for. Feiras como a de Acari não acabam nunca, pode escrever.”
Não escrevo, mas, de posse da segunda lata, parto para a sequência do trajeto. “Não acabam nunca”. Os freqüentadores da feira andam em ritmo de domingo, ai de quem tiver pressa. Arrastam os chinelos de dedo, levantam poeira, param, olham, apontam para uma ou outra mercadoria, comem um pastel, empurram com um gole de caldo de cana. A impressão é de que não se interessam realmente por nada, ir à feira de Acari em um domingo é uma espécie de programa de fim de semana para quem não tem programa algum, longe que estão da praia e da renda que possibilitaria uma elevação nos padrões de consumo. A romaria por barracas e lonas, suspensas ou não, tem mais a ver com entretenimento que com o consumo propriamente dito.
Também parece não importar a procedência dos produtos comercializados ali, se têm nota fiscal ou se são fruto de roubo. Une-se o útil ao agradável. A feira é um passeio onde a dona de casa pode encontrar uma peça de dois quilos de fraldinha a cinco reais, ou cinco sabonetes Dove a dois. Quanto à possibilidade de aqueles mesmos itens ali comprados serem roubados futuramente para que voltem ao mercado, é uma senhora chamada Zulmira quem discorre, relógio da marca Cassio (assim mesmo, com dois S) em punho: “Se tiver que ser, vai ser. Ninguém tá livre de ser roubado, não importa se compra aqui ou na loja”.
“Se tiver que ser, vai ser”. Cada um com sua fé. Se a zona sul tem shopping, eles têm chope.
Segui a fila em direção ao viaduto. O ar modorrento pós-almoço tomou conta da feira, mas o sol não dava trégua. Passava das duas horas. As duas cervejas, que nem de longe estavam geladas como prometiam, viraram três, quatro, e ainda não comera nada àquela altura. Cerveja quente me faz muito mal. Suei frio, em meio à procissão de ambulantes, o rosto lavado. À cabeça me veio o funk antigo, é, sim, lá em Acari…
Lembrei das peças que Milton e Eduardo me pediram para procurar. Só então atentei para o fato de que não havia muitas peças de carro à venda na famosa Robauto. Vi algumas, é verdade, mas nem de longe a oferta correspondeu às minhas expectativas. Robauto que se preze tem que ser a Meca do mercado negro automotivo, a Asunción para os motoristas de boa vontade e baixas expectativas quanto à qualidade. Fiquei levemente frustrado.
Agenor havia dito que a oferta de peças automotivas era diretamente proporcional ao tempo decorrido após as batidas policiais. A última era ainda recente, daí o número relativamente baixo. Fazia sentido.
Após um breve descanso sob uma marquise, arrastei-me até o viaduto. Nada de borrachas, bicos injetores. Compressores, menos ainda. Por alguns instantes me confundi quanto à rua onde deixei o carro, mas não cheguei a temer pelo pior, que seria o furto do veículo. Temi pelo calor, devido ao ar-condicionado pifado. As peças ficariam para a próxima. Mas… haveria uma próxima?
“Feiras como a de Acari não acabam nunca”, escrevi no chamativo celular, um tanto desatento.