mare nostrum

a última lhe escorre pelo peito

insubstância fugidia que persiste em consonância

e, sublime, leva junto a si o inescapável suspiro.

 

vazio.

salto no escuro com a incerteza a testemunhar

vamos, vumbora

que mais há por ver?

 

acordo trôpego, âmago em largo descompasso

miro o que não tem nome em recônditos insuspeitos

sem rosto, essência

minha busca é por nós em detalhes despercebidos

 

as palavras emudecem e dão o tom da solidão

nesta noite de chuva para a qual não há abrigo – sou eu a transbordar

fluindo em curvas, quedas e corredeiras

tua perna foz, braço de rio

meus olhos, mare nostrum de sonhos submersos em naufrágio


Haikai de quem vai

vida a esquecer
ao vento, saudade
à noite vem ter


Tauromaquia

Aproximar e afastar.  Permitir e repelir. Como uma dança, movimento cíclico, embora não seja circular: elipse, tangência.

Desejo e medo. Bailar com a morte diante de um precipício.

No princípio o que se ouve é indistinguível. São milhares de vozes disfarçadas, sons guturais, fôlegos em suspensão, abafados por mãos espalmadas. As palavras que escapam reverberam e perdem sua identidade em meio a gritos, urros, apupos, palavrões, suspiros.

Temblor de tierra.

Com o tempo os ouvidos se adaptam. O bater no peito ecoa em seus tímpanos. A areia chia sob seus pés.

Encara-o. Enche e esvazia os pulmões. Finca o olhar. Está pronto.


Locanty doou R$ 2,5 milhões para PMDB e PT nas eleições de 2010

Após o flagrante da tentativa de fraude em processo licitatório cometida pelas empresas Locanty, Rufolo, Bella Vista e Toesa, os contratos firmados entre elas e órgãos públicos passam por revisão. Ministério Público, TCU, CGU e Polícia Federal investigam a ocorrência de irregularidades. Governo do estado e prefeitura do Rio de Janeiro suspenderam pagamentos às empresas envolvidas.

No ano de 2011, a Locanty recebeu quase 40 milhões de reais em pagamentos do governo federal. A maior parte – R$ 33.106.908,43 – envolveu gastos com locação de mão-de-obra, a.k.a. terceirização.

Saíram dos cofres da prefeitura carioca para a empresa quase R$ 9 milhões.

De acordo com o TSE, a empresa de Duque de Caxias efetuou doações durante as eleições de 2010 no montante de R$ 3.320.000,00. Só para o PMDB de Cabral e Paes, R$ 1,7 milhão. Ao comitê financeiro do PT, 800 mil.

Seria a política do “toma lá, dá cá”?


“Definitivo”, de Drummond

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional…


Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

 

Clarice Lispector


o sonho é uma leoa

Há tempos não sonho. Sonho algum, nem ao menos aqueles que antecedem o despertar e geralmente são acompanhados por um retesamento do corpo. Deixo-me estar na cama por muito tempo ainda após acordar, na vã esperança de voltar a dormir. Tento induzir meus pensamentos na crença de que ao me fixar em algo específico, com determinação, posso moldar meu sonho, domá-lo feito fera de circo. Nada. O sonho segue caminhando rasteiro por trilhas imperceptíveis, inalcançável em meio à savana, e então já não mais sei se sou caça ou caçador. Abro os olhos. É mais um dia de sol. Fecho os olhos novamente. A ausência de sonhos não me incomoda mais que o ritmo dos tambores que ecoam lá fora.


Uma alegoria da caverna, no morro do Vidigal

Matéria publicada no endereço abaixo (maldito wordpress, não consigo mais inserir links…).

http://www.cadernosdereportagem.blogspot.com/2012/01/uma-alegoria-da-caverna-no-morro-do.html


A seguir, cenas dos próximos capítulos…

“Francisco Couto é seu nome de batismo. Francisco pela devoção da finada mãe, Couto advindo do reconhecimento do genitor. Chico é apelido convencionado para qualquer Francisco Brasil afora, inclusive nas Minas Gerais onde este nasceu há declarados 78 anos e de onde saiu, ainda na adolescência, vindo parar no Rio das chuvas de janeiro, fevereiro e março.

A peculiaridade deste Chico é ser da Toca. Chico da Toca, Chico da Pedra, Chico da Caverna. Diferentes epítetos decorrentes do que, há mais de duas décadas, pareceu ser o único caminho aos olhos de Francisco: assumir um buraco entre dois blocos de rocha como sua casa.”

Trecho de matéria a ser publicada em breve, aqui e no blog Cadernos de Reportagem.


do mar

Os muros de água erguidos e subitamente postos abaixo, a espuma que sobe em vagas, como se o mar quisesse ultrapassar o limite imposto pelo céu no horizonte.

O vento é frio e salgado. As gaivotas se foram, o sol se escondeu. Os barcos dos pescadores ficaram ancorados nesta manhã cinzenta.

As ondas investem contra as rochas em seu embate infinito. Ouve-se o som de uma multidão em fúria a cada golpe, um tremor se propaga no ar.

Atento e disperso a um só tempo, compenetrado em idéias flutuantes, deixo-me levar pela ressaca.

O que resta é bruma.


Tunísia, Tahrir, Tottenham, Tatuapé.

Ciente dos tumultos que ocorrem em Londres desde o dia 6, tuíto pela manhã: “música do dia: the clash, london’s burning”. Leio reportagens, vejo imagens, saques, confrontos, moradores pulando de prédios em chamas, carros destruídos, homens encapuzados, policiais diante de lojas invadidas. Quanto mais me informo, mais me ocorrem memórias de manifestações, algumas recentes, outras nem tanto.

Alguns analistas afirmam que as cenas de destruição em Londres têm origem puramente no vandalismo de seus participantes. O mesmo foi dito – quanto tempo faz? – sobre os jovens descendentes de marroquinos, argelinos, tunisianos que atearam fogo a veículos da banlieue parisienne. Mubarak valeu-se da mesma abordagem durante os protestos da praça Tahrir: são vândalos e, como tais, devem ser duramente reprimidos.

O político britânico conservador e membro do Parlamento Europeu Roger Helmer aderiu à linha: “Hora de endurecer. Tragam o exército. Atirem em saqueadores e incendiários à vista”.

Direitos humanos?

Tottenham, onde uma manifestação pacífica – a priori – em repúdio à morte de Mark Duggan por policiais deu início à onda de violência, abrange áreas com as mais altas taxas de desemprego de Londres. Há também um histórico de tensão racial motivada pela abordagem policial a jovens locais. Adicione a recente questão do crédito estudantil, ainda no imaginário coletivo e para a qual o premier britânico David Cameron não deu uma solução satisfatória, e junte tudo sob a pressão da crise econômica européia – que, a reboque, implica em cortes no orçamento e um previsível enfraquecimento de políticas de bem-estar da população.

Pronto. A convulsão social está servida.

Converso com minha colega de escritório Margá sobre os acontecimentos. Falamos de Londres, Paris, Cairo.

“É a única maneira (de mudar a realidade à nossa volta). Atear fogo, quebrar tudo. A via política é ineficiente. Ou, no mínimo, é lenta.”

Miro Margá nos olhos. Confronto as últimas impressões com a percepção que costumava ter dela. Mãe, apicultora, funcionária pública, sempre cordial. A paz em pessoa. Ninguém que costuma lidar com abelhas manifesta-se abertamente a favor de manifestações do gênero, certo? Errado.

Digo que invejo sociedades capazes de se indignarem. Acompanho com olhos cobiçosos os panelaços argentinos, as campas catalãs. Falamos de 1984, A revolução dos bichos. V de Vingança. Wu Ming. Anonymous. Wikileaks. Concordamos. Imediatamente minha pré-existente simpatia por Margá é catapultada à estratosfera da consideração pessoal. Falamos ainda de nossa realidade mais próxima, a corrupção de nossos governantes, pobreza, insegurança. A influência da economia no cotidiano de um povo. Divago. Tuíte das três e meia: “música da tarde: Brixton, Bronx ou Baixada #londonriots”.

“O desejo – de mudança, de conquistas das mais diversas – move o mundo. O medo é o que nos freia”, concluímos. E nos voltamos para os respectivos monitores.


Com certeza?

“Com certeza.”

A expressão me incomoda deveras, e a ouço com mais freqüência do que gostaria.

O que há de certo, afinal? Desconheço. “A morte”, diria alguém afeito a máximas e ditos populares, provavelmente temente a deus – e à morte.

Questionável, também. Qualquer biólogo afirmaria que a morte de um é a vida de outro, que a troca de energia permanece no pós-vida e que tudo está, em maior ou menor grau, interligado por meio de conexões rizomáticas infinitas e, por extensão, incertas.

A certeza da morte só se aplica à vaidade do ego. Ela – a morte (acho de bom tom tratá-la de um modo familiar, intimista, personificando-a. Fomenta a boa vontade na leitura destas linhas entre aqueles que a temem. O medo é diretamente relacionado ao desconhecido) – é certa em sua inevitabilidade para com os seres enquanto indivíduos, porém incerta na medida em que se analisa o porvir, o além-túmulo.

O certo é incerto.

Melhor aceitar a efemeridade do que nos cerca, admitir a nossa transitoriedade pessoal, embora transferível, e seguirmos em frente. Para onde, impossível saber.

Proponho a troca de com certeza por talvez, quem sabe?, quiçá, porventura. Possibilidades em aberto, mas sem cair na falácia do se deus quiser, cláusula pétrea do comodismo.

Cogite o impensável, admita o inimaginável. É uma postura diante da vida, antes que uma filosofia. Um sorvete cujo sabor você nunca experimentou, tangerina com macadâmias, abricó com umbú. Um caminho diferente na volta do trabalho. Mais longo, porém mais agradável. Um novo enfoque, um novo approach, um viés revolucionário. Quantas invenções, quantas descobertas daí adviriam, a cura do câncer, a reinvenção da roda, a descoberta de vida extraterrestre, quem sabe?

Pense nisso quando se deparar com um flerte improvável, ou um convite inesperado. “Que tal um cineminha?”, ou um olhar encontrado em meio à multidão. Uma viagem, um vestido, plantar uma árvore, ter um filho, casar, namorar, ficar, andar de bicicleta. Um sonho, por mais que pareça distante, é tangível a ponto de se materializar em nossos devaneios.

Apenas evite o cuspe pro alto em forma de ‘com certeza’.

Experimente. Ouse. Tente alguns ‘com cerveja’ como recurso estilístico. Ou ‘com cereja’, por que não?

O impreciso é preciso.


É, sim, lá em Acari… ou ‘Medo e delírio na Robauto’

O tema não foi definido por mim. Foi sugerido pelo Alceste, professor de Reportagem Especial, diante de minhas fracas opções (Charanga Rubro-Negra e prostituição na Atlântica, a saber). “Por que você não faz uma matéria sobre a feira de Acari?”

Clima informal, sem a necessidade de agendamento prévio. Sim, por que não? Perderia um domingo, mas seria algo simples de se fazer.

Passei à pesquisa já no dia seguinte. Ao buscar por notícias relacionadas, vi que a Secretaria de Ordem Pública realizou uma blitz – o famoso Choque de Ordem – havia poucas semanas na feira, também conhecida como Robauto. Era preciso averiguar se a perspectiva de novas blitze impediria o funcionamento normal nos finais de semana seguintes, o que seria possível somente in loco.

Em uma tentativa de evitar o deslocamento para Acari à toa, entrei em contato com alguns conhecidos que talvez pudessem dar algumas indicações sobre o lugar. Sugeriram-me outras feiras, igualmente conhecidas como Robauto, uma em Campo Grande, outra na Vila do João. Todos foram unânimes em afirmar que a feira de Acari não existia mais. “Mas, como, se dia desses fizeram uma operação lá?”

Não sabiam. Mas foram unânimes também em afirmar que, caso a feira ainda existisse, dariam uma passada por lá em busca de peças para seus respectivos veículos. Compunham, pois, o perfil dos freqüentadores do local – o que se comprova a partir de uma descrição de seus respectivos veículos.

Eduardo tem um Palio 2002, de uma cor que se situa entre o verde e o azul. Após tantas pinturas nem o próprio dono sabe afirmar com certeza. Se bem que o carro está registrado em nome de uma financeira, e após o atraso deliberado no pagamento das últimas 24 prestações consta uma solicitação de busca e apreensão do veículo nos arquivos da polícia. Então, tecnicamente, Eduardo não é o dono do Palio. Fiquemos com o verde, para todos os efeitos.

O Palio verde, com Eduardo ao volante, já derrubou dois postes, que custaram R$ 300 cada um, pagos à Light. No último acidente – se é que se pode chamar de acidente quaisquer colisões provocadas por um motorista clinicamente diagnosticado como portador de epilepsia que costumeiramente ingere incontáveis doses de álcool –carimbou a traseira de um ônibus, em uma batida que acabou com a dianteira do carro, sobretudo o lado direito. No lado esquerdo, o do motorista, o estrago foi relativamente menor: o pára-choque do ônibus ficou a dois palmos do rosto de Eduardo.

O ocorrido se deu em 2010, e só agora ele conseguiu concluir o conserto do veículo. Após o embate com dois postes e um ônibus, e mesmo com os reparos subseqüentes, o Palio circula torto feito um Jipe veterano de guerra. Um dos jipes bombardeados. E na Segunda Guerra, frise-se.

Dizem que o carro reflete o dono que tem. Coincidência ou não, há poucos meses Eduardo passou por uma cirurgia para corrigir uma hérnia de disco. Resta saber se o desvio não foi causado pelo banco desnivelado, ou o volante em forma de elipse, ou a direção desalinhada…

Eduardo não poderia me acompanhar até Acari. Ele mora em Campo Grande, e ainda faz fisioterapia. Prontificou-se a me acompanhar à Robauto de seu bairro, caso não lograsse êxito, e não deixou de me pedir para procurar uma borracha para a vedação do porta-malas. “Procure o Milton, ele pode te ajudar.”

Milton tem um Fusca 78. Sempre quis ter um porque julga o modelo da Volkswagen como um carro “confiável”, opinião compartilhada por muitos que entendem do assunto. O Fusca em questão parece ser a exceção que confirma a regra, pois é habitué de oficinas das mais variadas especialidades. No último conserto (sic) foi usado um arame de sustentação de guarda-chuva como bico injetor de combustível. Quando dá carona a alguém, Milton invariavelmente sai-se com a piada “É bom porque assim tem alguém para empurrar o carro enquanto eu dou o tranco”. Quem ouve a piada raramente acha graça.

Milton, assim como Eduardo, não me acompanharia até a feira. Mas me convidou para um jogo de futebol em Vilar dos Teles, no domingo de manhã. “Vilar dos Teles fica perto de Acari. Nós vamos, jogamos, depois você parte para Acari e faz sua matéria. Aproveita e procura um bico injetor pro Fuscão”.

Claro que não fomos no Fusca. O jogo estava marcado para as nove da manhã e precisávamos chegar. Veja bem, eu disse chegar, o que já seria uma façanha. Pontualidade estava fora de cogitação no caso em tela.

Não sabíamos se estávamos no caminho correto até pararmos em um posto e o frentista confirmar: “Siga na Avenida Automóvel Clube, quando passar das três pontes vire na primeira à direita.” “Três Pontes?” “É só contar, uma, duas, três pontes.”

Motorista perdido faz cada pergunta, quem trabalha em posto deve ficar de saco cheio. Taxistas também, mas eles merecem ser azucrinados em retribuição às bandalheiras que usualmente cometem no trânsito.

Finda a pelada, mesmo caminho na volta. Milton voltou no carro de outro camarada, igualmente derrotado na peleja, por 3 a 2. Automóvel Clube, Rodovia Presidente Dutra. Os carros seguiram por trajetos distintos quando deixei a Dutra e peguei a Avenida Brasil. Rumei no sentido norte até a passarela 28, onde se via a placa “Acari – Fazenda Botafogo” e a seta a indicar a saída à direita. Peguei a rua Pedro Jório e contornei um conjunto habitacional que se estendia por uns cinco quarteirões. Os prédios pintados de verde, talvez em uma tentativa de compensar a falta de árvores na região, ou como recurso de cromoterapia. Verde é esperança, dizem. Mesmo que no subúrbio, de frente para a barulhenta e nada cromoterápica Avenida Brasil, com todos seus caminhões e carretas e charretes.

Virei à direita novamente na rua Victor Frond, rumo ao leste. Mais tarde pesquisei sobre o nome e descobri que Frond foi um fotógrafo francês que no século 19 se dispôs a registrar as terras tupiniquins até sua mais longínqua província, em seu livro Brésil Pittoresque. Tudo a ver. Sem saber, naquele instante seguia eu imbuído do mais genuíno espírito frondiano, desbravador de feiras nunca dantes documentadas.

Acho que fui pela contramão, mas não me preocupei, bandeirante que era. Ademais, o previsto clima de informalidade (deixemos nestes termos) da feira para a qual eu seguia não estimulava a observância de regras de trânsito. E a rua estava deserta.
Foi então que eu reparei. Não havia uma única pessoa nas ruas. Parei na esquina da Frond com a Ribeyrolles – Charles Ribeyrolles, autor dos textos no livro Pittoresque – mirei um lado e outro, e nada. O dia estava quente, e Acari fica longe do mar. “Todos devem estar em suas casas”, pensei, “no conforto das salas equipadas com ventiladores e aparelhos de ar-condicionado comprados em prestações a perder de vista”. O carro em que estava não tinha ar-condicionado operante. Minha lista crescia. Borracha para porta-malas, bico injetor, compressor de ar-condicionado…

Ao olhar trezentos metros adiante, porém, notei que a rua transversal estava movimentada. Só podia ser a feira. Era. Não havia onde estacionar. Entrei na Fruhbeck, com nome de maestro, também pela contramão. Larguei o carro sobre a calçada, com o único cuidado de não obstruir a garagem de ninguém. Lembrei o nome da feira, Robauto. Disparei o alarme. Considerei a possibilidade do alarme não adiantar de nada em uma eventual tentativa de roubo. O carro tem seguro. Dei de ombros.

A feira fica ao lado da estação do metrô de Acari / Fazenda Botafogo, e ocupa toda a extensão da calçada diante do muro que a cerca, algo próximo a um quilômetro, um quilômetro e meio, na Avenida Automóvel Clube (ou Pastor Martin Luther King Jr., segundo o Google Maps. A via parece ser a extensão daquela de Vilar dos Teles, a das três pontes. Alguns passantes me garantiram o mesmo, então fiquei com a verdade dos nativos. Afinal, o que o Google entende de Acari?) desde a Avenida Prefeito Sá Lessa até o vão do viaduto por onde passa a Avenida Brasil. O muro é ornado com ladrilhos coloridos que, na forma como foram dispostos, criam uma paisagem contígua e repetitiva de árvores e campos verdejantes, fundeados por um céu azul e nuvens brancas. Ou seja, tudo o que não há em Acari. Pittoresque.

O relógio marcava 35 graus. A sensação térmica era bem superior a isso. Cravava também o meio-dia e estampava a foto de Leandro Hassum, comediante do programa Zorra Total, em anúncio para os Supermercados Guanabara. “Um milhão de reais em prêmios e um carro zero quilômetro toda semana”. Ao fundo, um Fiat Uno modelo novo, geladeira, fogão, ventilador, máquina de lavar, tudo muito branquinho, novinho, com desconto no IPI para os não-sorteados.

Desci o olhar e estava tudo ali, em continuidade ao anúncio: geladeira, fogão, ventilador, máquina de lavar… até o Uno, provavelmente. Mas tudo estava desconstruído, em partes e peças avulsas, expostas aos transeuntes sobre lonas azuis, amarelas, lençóis estampados e carcomidos, pedaços de papelão, direto no chão. O branquinho passava longe. Impostos, idem. Mas são encontrados toda semana, também. A menos que o Choque de Ordem se abata sobre a zorra.

Bicicletas, bolachões de vinil, gaiolas vazias, gaiolas com passarinhos, passarinhos sem gaiola, vasos sanitários – novos ou usados? – e bidês, os onipresentes jogos para Playstation, DVD’s com filmes nacionais – lembro da carteira funcional da Ancine em meu bolso, mas logo esqueço – e estrangeiros, brinquedos made in China, com ou sem o selo da Abrinq, sapatos, muitos sapatos, reluzentes, à meia-sola, gastos, furados, parafusos, figurinhas de Copas e Brasileirões imemoráveis, Dodôs e Bobôs, Ademires, Preud’hommes, Bebetos e Lechtkovs, porcas, arruelas, uma porca de verdade, leitoa amarrada a um poste, lingerie para todos os gostos e até para quem não gosta, corpetes, espartilhos, cintas-liga, meias três-quartos e sete-oitavos, calcinhas bélicas e de vovó, baby-dolls com um suspeito Je t’aime na altura da bunda – ulalá, monsieur Frond – e de oncinha, um casal de papagaios, um casal de maritacas, um casal se beijando com a boca suja de carne moída, copos de guaraná natural em equilíbrio, barracas de tapioca, milho cozido, pamonha, cuscuz, cocada preta, cocada branca, cocada boa…

Super Nintendo e Mega Drive, Neo Geo e Master System, Ataris e otários, discos rígidos e moles, cd’s em bom estado, arranhados e com mais de um furo, microfones, microsystems, mini-saias, microscópicas, espelhinhos e falsa prata – pra cima de mim, não, cara pálida – ouro de tolo, Ouro Branco, Sonho de Valsa, Serenata de Amor, Waldick Soriano, Jerry Adriani, Sidney Magal em cassete.
Tudo isso só na metade do trajeto, da rampa de acesso à estação até a Prefeito Sá Lessa. Teria de voltar por todo o caminho percorrido para conhecer a outra metade, que se estendia até embaixo da Avenida Brasil a partir da rampa.

Sentia-me cansado. Acordara cedo para jogar bola em Vilar dos Teles – e perdera o jogo, o que derrubou ainda mais a moral da tropa de um só – sem comer nada de café da manhã. Os quitutes da feira estavam definitivamente fora de cogitação. Já devia ser uma da tarde, o sol era inclemente e o suor escorria pelo meu rosto.

Pensei: “Uma cerveja cairia bem”.

Um bar, um bar, um bar… ei-lo, protegido por dois flamboyants de flores vermelhas e copas não tão frondosas como a proximidade com a rua Frond poderia sugerir. Bar do Kubanacan era seu nome. Andando em sua direção pensei que a junção da preposição com o artigo definido denota que este deve ser o nome do dono do bar, e não do bar em si. Como seria um sujeito com um apelido assim? E o que ele teria feito para merecer tal alcunha?

“Isso é segredo de estado”, afirmou Kubanacan com voz rouca de quem lida com bebuns e pinguços diuturnamente. Disse isso e me encarou, em escrutínio. Antes da Ancine que da Anvisa, pensei.

Ao reparar que os clientes do bar se esparramavam pela calçada defronte o bar em mesas e cadeiras de plástico, no bom proveito da sombra proporcionada pelos flamboyants e da cerveja aparentemente gelada – só podia estar gelada, todos compartilhavam de uma expressão de satisfação que só uma cerveja gelada em um domingo de sol na feira de Acari poderia proporcionar, presumi eu – acondicionada em garrafas de vidro de 600 mililitros, tasquei a pergunta: “Tem cerveja em lata aí?”

Só tinha Bohemia. Destoaria das marcas que se distribuíam entre as mesas, mas a portabilidade da lata (a segunda, haja vista que a primeira seria apreciada sob um flamboyant) seria fundamental para a incursão rumo à outra ponta da feira.

Sentei-me em um banco de granito, de onde podia ver uma partida de tranca disputada por senhores com idades que beiravam os setenta. Todos eles tinham cabelos brancos como os eletrodomésticos de Hassum, um ar tranqüilo e a pele enrugada pelas intempéries da vida. Rodeavam os quatro lados da mesa amarela – se fosse coerente com o slogan publicitário, seria redonda – e se revezavam no jogo. Um comprava uma carta, descartava outra. Outro. E outro. Certa vez arriavam algumas cartas na mesa, mas sem descartar. E o tempo passava. Convidaram-me para uma partida, mas fui obrigado a negar, embora seja um apreciador do jogo. Cada partida de tranca pode durar horas, e não pretendia ficar ali até muito mais tarde.

Contentei-me em assistir um pouco mais. Puxei conversa com Agenor – ou ele puxou conversa comigo, a reclamar da sorte – sobre o jogo, a feira, o calor cruel, o flamboyant e o Kubanacan – talvez o codinome do dono do bar tenha sido uma simples rima com o nome da árvore.

Agenor freqüenta o local há quinze anos, desde que se aposentou após três décadas de estrada na boléia de um caminhão. Fazia todo tipo de frete, para todo lugar. Perdeu as contas de quantas mulheres teve e quantas brigas arrumou. Por conta do jogo, não das mulheres. Hoje é casado com Dona Sátira, que apesar do nome é caseira e arredia a folguedos que não os de origem religiosa. Os olhos cinzazulados adquirem um tom nostálgico quando ele diz que foram casados quando novos, se separaram e voltaram a se aninhar após a aposentadoria de Agenor. “Ela vivia reclamando, não aceitava ser mulher de caminhoneiro. Queria que eu trabalhasse em escritório, camisa passada, mas nunca fui disso, não”.

Camisa atravessada sobre um ombro – “mesmo no inverno”, garante, e eu duvido – ri de uma jogada mal-sucedida do amigo. “Moramos aqui em cima”, dedo a indicar o prédio de três andares que se estende, além do Kubanacan, sobre um açougue e uma lanchonete. Com a visão privilegiada para a feira – “Que privilegiada o quê, rapaz… vista privilegiada tem quem mora à beira-mar. Aqui nós temos a vista prejudicada” – já testemunhou assaltos, duras da polícia, feirante correndo, cachorro latindo. “Podem inventar choque de ordem, choque elétrico, o que for. Feiras como a de Acari não acabam nunca, pode escrever.”

Não escrevo, mas, de posse da segunda lata, parto para a sequência do trajeto. “Não acabam nunca”. Os freqüentadores da feira andam em ritmo de domingo, ai de quem tiver pressa. Arrastam os chinelos de dedo, levantam poeira, param, olham, apontam para uma ou outra mercadoria, comem um pastel, empurram com um gole de caldo de cana. A impressão é de que não se interessam realmente por nada, ir à feira de Acari em um domingo é uma espécie de programa de fim de semana para quem não tem programa algum, longe que estão da praia e da renda que possibilitaria uma elevação nos padrões de consumo. A romaria por barracas e lonas, suspensas ou não, tem mais a ver com entretenimento que com o consumo propriamente dito.

Também parece não importar a procedência dos produtos comercializados ali, se têm nota fiscal ou se são fruto de roubo. Une-se o útil ao agradável. A feira é um passeio onde a dona de casa pode encontrar uma peça de dois quilos de fraldinha a cinco reais, ou cinco sabonetes Dove a dois. Quanto à possibilidade de aqueles mesmos itens ali comprados serem roubados futuramente para que voltem ao mercado, é uma senhora chamada Zulmira quem discorre, relógio da marca Cassio (assim mesmo, com dois S) em punho: “Se tiver que ser, vai ser. Ninguém tá livre de ser roubado, não importa se compra aqui ou na loja”.

“Se tiver que ser, vai ser”. Cada um com sua fé. Se a zona sul tem shopping, eles têm chope.

Segui a fila em direção ao viaduto. O ar modorrento pós-almoço tomou conta da feira, mas o sol não dava trégua. Passava das duas horas. As duas cervejas, que nem de longe estavam geladas como prometiam, viraram três, quatro, e ainda não comera nada àquela altura. Cerveja quente me faz muito mal. Suei frio, em meio à procissão de ambulantes, o rosto lavado. À cabeça me veio o funk antigo, é, sim, lá em Acari

Lembrei das peças que Milton e Eduardo me pediram para procurar. Só então atentei para o fato de que não havia muitas peças de carro à venda na famosa Robauto. Vi algumas, é verdade, mas nem de longe a oferta correspondeu às minhas expectativas. Robauto que se preze tem que ser a Meca do mercado negro automotivo, a Asunción para os motoristas de boa vontade e baixas expectativas quanto à qualidade. Fiquei levemente frustrado.

Agenor havia dito que a oferta de peças automotivas era diretamente proporcional ao tempo decorrido após as batidas policiais. A última era ainda recente, daí o número relativamente baixo. Fazia sentido.

Após um breve descanso sob uma marquise, arrastei-me até o viaduto. Nada de borrachas, bicos injetores. Compressores, menos ainda. Por alguns instantes me confundi quanto à rua onde deixei o carro, mas não cheguei a temer pelo pior, que seria o furto do veículo. Temi pelo calor, devido ao ar-condicionado pifado. As peças ficariam para a próxima. Mas… haveria uma próxima?

“Feiras como a de Acari não acabam nunca”, escrevi no chamativo celular, um tanto desatento.


Haikai de quem fica

noite esquecida
na ressaca dos sonhos
porto é partida


um dia qualquer

Você acorda.

Mira o estridente relógio-despertador. Põe-se de pé num sobressalto. Para o sono não há hora, minuto, segundo extra. Pensa que não merece começar o dia assim.

Vai para o trabalho. No trajeto repara que a cara de sono não é exclusividade sua. No escritório se esforça em manter um sorriso que, embora esteja longe de ser convincente, ao menos demonstra uma neutra afabilidade e certa camaradagem para com seus companheiros de trabalho, que dividem com você o café de qualidade questionável e as pilhas de relatórios, ofícios e congêneres. Bem, alguns só dividem o café.

Sente fome, mas pensa que se deixar para comer mais tarde talvez consiga criar em sua mente a ilusão de que o dia está passando rápido. Os sapos que você engoliu até este ponto do dia não servem como couvert. Você tenta se lembrar em que momento de sua vida sua carreira enveredou por este caminho – ou pela falta de um.

Pausa para o almoço. Das duas, uma: ou você não tem dinheiro para almoçar onde gostaria, ou não tem ao seu lado a companhia que queria. A qualidade da comida associa-se diretamente às alternativas anteriores. Contudo, seja qual for o cardápio, ou a comida não tem sabor ou você não tem tempo para saboreá-la. Sem olhar o relógio, você sabe que precisa voltar ao trabalho, e é o que faz.

Os papéis parecem ter se multiplicado em sua mesa, assim como os e-mails em sua caixa de mensagens. Seu chefe convoca uma reunião. Uma leve indigestão se anuncia em seu estômago. Se você tem um ente muito querido, é nesse momento que sente saudade.

O dia se arrasta. Reunião, trabalho, e-mails, trabalho. Hora de ir. Quer dizer, uma hora depois da hora de ir.

Horas perdidas no deslocamento de volta para casa, seja devido a engarrafamentos ou pela ineficiência do sistema de transportes públicos, ou ambos. Um motoqueiro jaz no asfalto. Você olha para o lado e nota que o motorista do carro vizinho tem aquela expressão de “puta que pariu ele tinha que morrer logo aqui, e agora?”

Uma música do Chico vem à cabeça. “Morreu na contramão atrapalhando o tráfego…”

Era tráfego ou trânsito? Contramão ou quarta-feira?

Não importa.

Você acorda.


Amanhecer em chiaroscuro

Ouço relatos queixosos a respeito da solidão. Então observo, não com surpresa, que boa parte dos amigos e amigas que estavam curtindo a solteirice há pouco tempo engrossam agora a fileira dos enamorados. Carência?

O frio só piora tudo. Amplifica o vazio, dizem. Talvez somente uma boa companhia seja capaz de esquentar as noites de céu limpo e vento gélido, a despeito dos agasalhos com cheiro de mofo retirados do armário e das burguesas meias a abrigar os pés. Pois a aproximação do inverno torna tudo mais cinza, e talvez a busca por alguém traga mais cores à estação. Ou talvez seja apenas uma espécie de capricho, afinal o vinho esquenta nossas veias indiferente ao nosso status de relacionamento, e estão aí chilenos, argentinos, franceses ao nosso dispor – os vinhos, os vinhos…

Mas para deixar-se acompanhar faz-se necessária uma espécie de preparação. Clichêzaço, mas você, moçoila, mancebo, precisa sentir-se bem em sua solidão para um pleno desfrutar de quem estiver ao seu lado. Aprecie as ruas vazias, ande de mãos dadas com os bolsos, aqueça a alma com a visão de um casal de namorados passeando de braços entremeados rumo ao cinema. Sem dó, sem dor, o amor é filme, dizem, para atuar e dirigir urge que saibas ser espectador.

Então, com esses olhos de quem sabe apreciar a beleza nos pormenores – mesmo que não haja com quem tecer comentários a respeito – siga em frente. O tempo voa, a vida é um sopro de ar quente na noite fria. E ao cabo de todo outono nos aguarda um edredon e um amanhecer em chiaroscuro, a dois.


Viver é mais que viver(?)

É natural querer morrer? Não morrer, simplesmente, de morte morrida, feito o desencadear sequencial do nascer, crescer, reproduzir e ciao, fluxo inexorável ao qual infindas gerações se habituaram com maior ou menor grau de dramaticidade e elocubrações. A referência aqui feita diz respeito à interrupção súbita e inapelável da vida, ponto final em aspirações diversas e possibilidades mil, para o bem ou para o mal. Pulo de ponte repleto de lirismo, salto no vácuo, projeção no infinito, pássaro desprovido de asas, seja artista frustrado ou amante desiludido. Passaria a vida pelos olhos do anjo caindo, tal e qual filme independente que poderia ser cult mas que acaba em pulp?
A infância em cidade pequena, a primeira palmada do pai, a goiabeira, o sorvete de nêspera, o tombo de bicicleta na ladeira de cima, o mergulho sem roupa no rio sem fundo, o cheiro de café, o cheiro da chuva, o primeiro beijo e o medo do escuro.
O vento, o céu, a estrada, os amigos, as dúvidas, os amores risíveis e todas as certezas que se tornariam dubitáveis dali a pouco, a solidão feita perene no decorrer dos anos, todas as pequenas pequenas-felicidades tão pequenas e rarefeitas e tão persistentes na memória de forma indefinida, os contornos borrados no relevo das lembranças pelo soerguimento de cordilheiras de pseudo-problemas, grãos de areia em altitude quando comparados aos Everests e Andes e Himalaias vindouros.
E então o inverno, a respiração fumegante na noite, o álcool a esquentar as veias, a efemeridade dos sorrisos e de tudo o mais, esbarrões impessoais, bolas de pinball, bilhar, roleta, Dostoievski estava certo, a vida é um jogo, e jogadores caminham pelas ruas vazias, mãos dadas aos bolsos, luzes amarelas intermitentes a piscar nos cruzamentos, o asfalto sempre está molhado, é o tempo que escorre para os bueiros, a cabeça a girar, pensamentos saltimbancos, uma música de letra indecifrável toca ao longe, a mente inventa sua própria canção em um ritmo que lhe é peculiar, o som dos próprios passos trôpegos, não há amanhã.
Não há beleza em querer? Pôr fim ao vazio, dar cabo do incerto, do quem sabe, do pode ser. Fim da história como a conheceu, Polaroid instantânea e eterna no desenrolar do movimento, um salto para o sombrio, porém instigante desconhecido. Admita o fascínio da plenitude de outrora, ou de nunca: o fez? Errado. Nada é certo. Não há, não é. Nonada.


Hit the road

Ela disse e então foi como um tapa na cara sem o estalo, o ardor nas bochechas como única reação. “Você é assim. Muda de idéia toda hora. E nunca vai mudar.” Sou? Não sei. Talvez sim, ou não, acho que sou mesmo um sujeito que saca a imprevisibilidade da vida, dos vários descaminhos e também das voltas e idas. Ouço e tenho a sensação, hoje certeira mas que já foi apenas intuição, de que sou de forma diferente, a existência aliada à consciência de sua/minha inserção em um acúmulo de tempos, imemoriais na mesma medida em que fugazes. Fiquei então meio que ofendido, resquícios de uma ânsia forjada – o homem teima em querer se ajustar, e sua declaração é como um atestado de falibilidade a este intento sabotado já em sua origem, já em meu âmago, posto que em verdade gosto de quem eu sou. Sou eu mesmo, mas não sempre o mesmo, não acho isso tão complicado, não, na verdade é até bem simples, minhas crenças e atitudes são suscetíveis à variabilidade de minhas experiências. E não deve ser assim? Quem não gosta de se surpreender? No meu caso é o ‘óbvio ululante’, vejo a última tirinha do Moon e do Bá, leio as mais novas linhas da Provasi, e parece que tudo inspira e conspira. Hit the road, Jack. “…Muda de idéia… nunca vai mudar.” Sem querer ela mata a charada, porque um homem nunca se banha duas vezes no mesmo rio, nunca trilha duas vezes o mesmo caminho, e eu sei. Digo num solilóquio “Vá, e logo, vá enquanto pode, vá ao sabor do vento e por onde suas pernas te arrastem, pois você carrega o gosto da terra e os olhos de nuvem. Erga a cabeça e siga em frente, não marche, voe, o verde a margear o asfalto com o azul por teto, encha as mãos com o tempo e sinta que você ainda vive. Passe, ficando, ou fique, passando, mude sem mudar, você tem um segredo e só deve contá-lo a quem realmente tiver a disposição de ouvi-lo. Hit the road, Jack, veja todos os rostos, enxergue além de seus olhos, reconheça neles sua história, a história, e em cada ruga um arabesco, em cada palavra uma nota, deixe-se cair na grama e ouvir a música da noite na voz das estrelas, pois somos todos capitães e passageiros a um só tempo, maestros e solistas, nesta imensa nave que é seu umbigo.”


das utopias

Que nunca mais vejamos as lágrimas um do outro, não mais os olhos crispados, a face tensa, os lábios rígidos e os dentes trincados. Que a dor de agora passe, ou se transforme em algo diverso, mas passe com sua tristeza que eu quero passar também. Fique você com suas dúvidas, fico eu com minhas lembranças, saudade do que não foi, sempre ela.
Que seja só diversão. Que não haja culpa, sofrimento, nem ausência, que seja uma risada, ou mesmo gargalhada, sem fim, nem começo, que paire no ar leve como uma pluma, que suba sem parar num crescendo e chegue ao céu.
Que amanhã faça sol em nossas vidas, ou mesmo chuva, pois sabes que as nuvens sempre vêm carregadas de você, e nossos corações possam bater em larghetto. Quem sabe até mesmo allegro – ma non troppo.

Sigo andante. Queria que fosses comigo. Segurar tua mão na noite fria, o vento do sul soprando em nossos rostos, o caminho deserto se espraiando diante de nós, nosso caminho, duas linhas que se encontram no infinito, lado a lado na estrada. Que a incerteza do porvir não seja maior que o conforto do nosso olhar após o encontro. Miremos o horizonte em seus incontáveis fractais, ar e mar, vento e ressaca, vem, eu estou aqui, tudo está bem…

Que nossas almas se cruzem e se reconheçam, déjà vu a serviço do acaso.


Procura-se

De preferência novo. Limpo. Confiável. Inoxidável.

Que não reclame do acelerar da frequencia. Que não solte rangidos a cada curva do caminho. Bom de breque, de preferência com tanque cheio. Que não precise de recall nem retífica, remold ou resina. Resistente a todas as batidas, seja em colisão ou blitz. Germânico na eficiência e nipônico na exatidão, tumtumtumtumtumtum, sem recortes nem ruídos, sem improviso e paradinhas.

Eu quero outro coração.


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